B.Side Insights

Helena Veronese

Economista-chefe da B.Side Investimentos.

Ponto de vista

O dólar, o mercado de trabalho e os juros

O dólar, o mercado de trabalho e os juros

A despeito de os dados divulgados entre ontem e hoje terem contribuído para aumentar as apostas em torno de um corte de juros a partir de setembro nos EUA, a sexta-feira começou marcada por uma forte aversão ao risco no mercado local – e isso é observado em todos os ativos, com o dólar se destacando entre eles. Enquanto Dow Jones, S&P e Nasdaq renovam suas máximas lá fora, na esteira de um mercado vendo pelo menos dois cortes de 25bps na taxa de juros pelo Fed até o final deste ano, por aqui o que vemos é a Bolsa nas mínimas, juros abrindo e dólar, até aqui, atingindo a máxima de R$ 5,59.

Existem algumas explicações para o movimento desta manhã, e, de forma bastante genérica, podemos dizer que todas passam pelas preocupações com fiscal deteriorado e atividade ainda muito aquecida. Mas um dado em particular fez com que mercado e economistas passassem a questionar os próximos passos da política monetária e a convergência da inflação para meta: a taxa de desemprego.

Divulgada nesta manhã pelo IBGE, a taxa de desemprego no trimestre encerrado em maio caiu para 7,1% (de 7,8% no trimestre móvel imediatamente anterior), a menor taxa para o período desde 2014. Adicionalmente, o número de desocupados, de 7,8 milhões, é o menor observado desde 2015. Foi registrado, ainda, crescimento expressivo no número de empregados com carteira de trabalho no setor privado, que atingiram um novo recorde na série histórica (38,32 milhões), enquanto o rendimento real do trabalhador cresceu 5,6% em base anualizada.

De maneira geral, a mensagem que os dados divulgados hoje pelo IBGE nos traz não chega a ser uma grande novidade, já que o mercado de trabalho vem dando sinais de aquecimento e não é de hoje. O ponto a se observar aqui, no entanto, é que a taxa de desemprego natural do Brasil, ou seja, o nível em que o desemprego não pressiona a inflação, é estimada entre 8,0% e 8,5%. A taxa divulgada hoje, de 7,1%, já pode ser considerada, portanto, inflacionária – e isso deve mudar pouco se considerarmos que há pessoas que deixaram de procurar emprego por conta dos benefícios do governo, mas que, em algum momento, tentarão voltar para o mercado de trabalho. Ou seja, se os números antes despertavam cautela, não é exagero dizer que os dados de hoje são um grande sinal de alerta para o Banco Central.

É importante ressaltar, ainda, que estes números conversam bastante com as últimas sinalizações que a autoridade monetária emitiu: preocupação com a atividade mais forte que o esperado, com um hiato do produto já neutro e com a inflação de serviços, além de revisões para cima tanto do crescimento do PIB, quanto da inflação esperada para 2024. Ainda que as expectativas sejam de um certo desaquecimento no mercado de trabalho ao longo do segundo semestre, é inegável que, nos níveis de hoje, esta taxa de desemprego vai dificultar a convergência da inflação.

E como isso tudo se conecta com um dólar mais caro? A moeda norte-americana já vinha valorizando em relação ao real bem antes dos números de hoje, fruto de uma forte preocupação com o cenário fiscal no país (que também se fortaleceu hoje cedo, com a divulgação de um déficit primário maior que o esperado). Para se ter uma ideia, apenas no mês de julho a moeda acumula alta de mais de 6% em relação ao real. No ano, a valorização já chega a quase 15%. O que os dados de hoje fizeram foi consolidar não só a visão de que a Selic ficará “higher for longer”, mas, principalmente, trazer à tona a discussão de que, se seguirmos por esse caminho, talvez o próximo passo da autoridade monetária possa ser de alta na taxa Selic. Ou seja, o cenário que se desenha é de bastante incerteza, seja sob a ótica fiscal, seja sob a ótica da autoridade monetária – e nada combina mais com essas preocupações do que um dólar em alta.

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