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Ponto de vista

“O teto de gastos não é mais um instrumento de estabilização”, afirma Carlos Woelz, sócio-fundador da Kapitalo

“O teto de gastos não é mais um instrumento de estabilização”, afirma Carlos Woelz, sócio-fundador da Kapitalo

Desde que integrantes do governo anunciaram no início da semana que parte do Auxílio Brasil, programa social que substituirá o Bolsa Família, poderá ser pago fora do teto de gastos, o mercado foi tomado por uma onda de pessimismo, refletido no tripé: Bolsa brasileira para baixo e juros e dólar para cima.

De acordo com Carlos Woelz, sócio-fundador da Kapitalo Investimentos, estamos em um ponto macroeconômico de muito cuidado com uma pressão inflacionária. Historicamente, nesse cenário, o Brasil costuma utilizar “políticas de estabilização” e não “políticas de aceleração”. Esse freio de arrumação, como define Woelz, deveria vir pelo fiscal e não pela política monetária.

Pelas contas da Kapitalo, o País teve um déficit estrutural de 2% do PIB nos últimos anos, e caminhamos para um revés de 3% em 2021. “Com seis anos de teto de gastos, não o cumprimos em três, então o teto não é mais um instrumento de estabilização”, afirmou Woelz em participação no evento BTG Bankers Experience 2021.

Para o sócio-fundador da Kapitalo, o teto, na realidade, é uma política para poder fazer ajuste fiscal gradualmente. Caso o País abandone o teto, a única maneira de estabilizar a confiança na dívida seria melhorar o resultado primário rapidamente. “Minar a credibilidade do teto tem o efeito de piorar o mercado até que haja uma reação contrária na parte dos gastos.”

Carlos Woelz, sócio-fundador da Kapitalo Investimentos

A visão também é compartilhada por Tiago Berriel, estrategista-chefe do BTG Pactual, que vê, como consequência a essa desorganização fiscal, uma resposta maior de política monetária que vai acabar levando a revisões para baixo da atividade. “No final, estamos vendo nas últimas semanas contratações de dificuldades de crescimento para o ano que vem e para o médio prazo do Brasil.”

Segundo ele, existe uma vontade política de aumentar gastos no que vem e que não vem acompanhada por uma vontade de elevação de impostos. “São mudanças casuísticas e não bem pensadas”, afirmou.

Para Berriel, a manutenção do teto de gastos para os anos subsequentes com as mudanças propostas pelo governo faz o mecanismo perder a credibilidade. “Qualquer ajuste no futuro e não no presente perde a credibilidade”, disse o estrategista-chefe. “O teto não está sendo um disciplinador na discussão de gastos.”

Caso as mudanças sejam confirmadas, o Brasil perderá essa âncora fiscal sem colocar nada no lugar. Assim, o risco de dominância fiscal (quando há desequilíbrio entre a política monetária e a política fiscal) não aumenta pela necessidade de ter um juro alto, mas justamente porque perdemos essa âncora fiscal. “Para qualquer nível de juros ficou mais perigoso”, finalizou Berriel.

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